[quinta-feira, 28 de outubro de 2010]
Pede pra sairEstou em falta com o blog e sei bem disso, mas pretendo aos poucos remediar essa situação.
Dificilmente dedico um post inteiro a uma review de filme, como às vezes faço com livros. Gosto de escrever resenhas e vejo filmes bons aos montes por aí, mas nem todo o bom filme gera uma discussão interessante. Às vezes, por mais legal que ele seja, não me permite falar sobre nada além dele próprio, não me colocando pra pensar sobre nenhum tema, não me acrescentando nada e não mexendo com as minhas sensações ou idéias. Falar de um filme simplesmente pela sua qualidade cinematográfica é válido também, mas é algo que eu procuro com menos freqüência.
Se dedico um post inteiro a alguma obra em particular é para enfatizar o quanto ela me marcou, seja pela expectativa que eu depositava nela, seja por ter me desacomodado de alguma forma. A função básica da arte, afinal de contas, é desacomodar.
Dez pontos pro leitor que, após essa introdução, tiver adivinhado que o filme que eu vou resenhar é Tropa de Elite 2.
Como eu disse antes, meu objetivo aqui não é falar das qualidades cinematográficas da película. Fica difícil, contudo, não comentar alguns aspectos técnicos da produção, que nada deixam a desejar para os bons filmes de ação americanos. Fico satisfeita em receber mais essa prova de que o Brasil tem perfeitas condições de criar cinema inteligente e de qualidade.
A direção e o roteiro estavam bastante afiados, e certamente concorreríamos ao Oscar se americanos soubessem ler legendas. A câmera chacoalha demais em alguns momentos, mas no geral as cenas de ação estão excelentes, com destaque para a continuação da cena inicial. A fotografia ficou ótima também, ajudando a criar o clima desejado em cada momento, mas o que mais me surpreendeu foram alguns planos. Por exemplo, a cena da invasão do Bope à favela, sobre o campo de futebol, ficou simplesmente de babar. Aí já se vê que a coisa é outro nível.
As atuações também estão excelentes, e quem não se destaca no mínimo não atrapalha. Os personagens mais relevantes estão todos bastante convincentes, com destaque óbvio para o Wagner Moura. O Capitão Nascimento é um personagem fantástico, é ogro, controverso, radical, mas absolutamente carismático, e por mais que se possa discordar dele, em maior ou menor medida ele acaba servindo de eco para os pensamentos da platéia. É seguramente um dos personagens mais antológicos do cinema brasileiro, e o ator está absolutamente à vontade no papel. E eu pegava o Wagner Moura.
Meu único senão é a cena final do filme, que a meu ver tira um pouco da fluidez da película. Melhor sem ela, mas também não chegou a estragar.
Devo confessar ainda que eu morria de medo dessa continuação. Tropa de Elite é um dos meus filmes nacionais preferidos e pelo qual tenho um grande carinho. Dado o sucesso que ele fez, contudo, a lógica hollywoodiana o obrigaria a ter uma continuação cuja qualidade seria irrelevante, o importante mesmo é gerar lucro em cima do nome da franquia. Bem, se eu pensava que esse seria o caso – e por MUITO tempo eu pensei – estava bastante enganada.
De tempos em tempos surgem continuações que realmente se preocupam em acrescentar algo de novo, em lugar de requentar a história antiga. Aqui não é diferente: ficam alguns elementos de sucesso do primeiro filme – atuações e personagens bacanas, ambientação e contexto da história, o modo como a história é contada – mas a história em si e a discussão que o filme propõe recebem um upgrade. Na verdade, ele consegue o que poucas seqüências fazem, mas todas deveriam: amadurecer a história e os personagens do filme anterior de forma fluida, sem descaracterizar a série.
Enquanto seu antecessor é um filme mais FANFARRÃO, em Tropa de Elite 2 a coisa fica mais séria. Saem de cena muitas piadinhas sarcásticas, sacadinhas bem-humoradas e bordões. Também diminui o número de torturas e sangue espirrando em cena para dar lugar a algo bem mais político. Quem já ouviu algo sobre a história sabe que agora o Capitão Nascimento não está mais no BOPE, e sim na Secretaria de Segurança. Fiquei com medo de que esse movimento descaracterizasse o personagem, mas na verdade foi uma sacada genial: ele continua sendo o mesmo cara de sempre, só que agora tem acesso a outro ângulo das questões de segurança do Rio.
É curioso notar que, apesar de jogar com os mesmos personagens e o mesmo cenário, o filme tem um foco bem diverso do anterior. Se no primeiro vimos a questão do tráfico de drogas, da classe alta consumidora e da polícia corrupta, no segundo filme apenas o último elemento se mantém, os dois primeiros ficam mais de canto e abrem espaço para a corrupção na política. Li esses tempos um texto do Juremir Machado criticando o filme justamente pela ausência dos consumidores de classe alta, o que ao ver dele era uma boa sacada do primeiro filme porque responsabiliza também o espectador pela bagunça toda. Olha, considero essa questão super pertinente mesmo, só que, diferente do tio Jurê, não acho que a ausência dela signifique que o filme se vendeu “ao sistema”. O filme enfraqueceria se tentasse abordar todos os eixos com a mesma intensidade, acredito que ele fez a escolha certa e conseguiu ser extremamente pungente no eixo que escolheu.
É, portanto, um filme com um cunho político muito forte. Ele foca bastante a questão da corrupção, numa lógica triste, porém realista, aonde os honestos se fodem o tempo todo e os corruptos saem numa boa. Não quero estragar a história, mas num certo momento senti que o filme tinha se colocado numa situação complicada, porque minha indignação com a política era tamanha que eu só não sairia do cinema deprimida caso alguém entrasse no Congresso de metralhadora em punho. Contudo, um filme tão cru e realista não se renderia a um final feliz e pouco plausível. Aí tenho que admirar o modo como eles finalizam a história, deixando o espectador satisfeito, mas ainda assim alerta, ciente de que o sistema continua lá e que apesar de todos os esforços só mudam os personagens, mesmo.
Esse é um dos aspectos mais geniais da película, que não se rende a soluções fáceis. Durante o filme todo tu tens uma radiografia do problema, mas também percebes que todas as soluções tentadas são pequenas ou temporárias. Nesse sentido, ele serve de cutucão e interrogação ao espectador muito mais do que o primeiro filme. Em época de eleições, então, isso é um presente para a população. Um daqueles pequenos lembretes de que, se não formos conscientes, alguém será por nós.
Enfim, não tem muito o que dissertar sem cair no risco de estragar a história do filme. Assistam e preparem-se para um soco no estômago em termos de realidade brasileira – e internacional também, mas digo “brasileira” porque se tu és brasileiro, assiste ao filme e ele não te incomoda, tu seguramente vives numa bolha.
Sei que muita gente critica o personagem do Capitão Nascimento. Que o cara é fascista, radical, que tá cagando pros direitos humanos, etc. Eu seguramente não concordo com tudo o que ele faz, mas acho um personagem simplesmente genial. Não só pelo tipo de senso de humor, sacadinhas e carisma, mas também porque com todos os seus radicalismos, o personagem é honesto e luta muito por aquilo que acredita. Penso eu que se ele fosse simplesmente um monstro insensível ninguém torceria por ele no primeiro filme e essa continuação nem existiria, mas o personagem é muito humanizado. Mesmo suas ações radicais são uma resposta – não a única, mas uma das possibilidades – aos problemas que a sociedade lhe coloca, e se esse personagem é tão interessante é porque mesmo com esses extremismos ele ainda parece pensar em um bem maior do que apenas o seu próprio. Não acredito que os fins justifiquem os meios, mas acho que o modo de agir dele é também uma projeção da porção mais radical de cada um de nós. Todo mundo já se indignou um dia com o sistema e já sonhou em combater isso de alguma forma, nem que essa forma fosse ligar o “foda-se” e DETONAR ROQUENROU.
Um acerto interessante desse filme foi o personagem do Fraga, que serve como contraponto ao Capitão Nascimento – algo que não existia no primeiro filme. Se o Nascimento é o sujeito violento, radical e faca na bota, Fraga é o estereótipo de muitos professores de humanas das universidades, tão preocupado com os direitos humanos que chega a ser condescendente com os criminosos em alguns momentos. O legal é que o filme mostra que ambos os pontos de vista possuem seus prós e contras, não há um caminho certo. Não concordo totalmente com o modo de pensar de nenhum dos dois personagens, e ao mesmo tempo concordo com ambos, porque cada um deles é muito coerente com sua própria lógica.
Ambos os personagens começam como rivais, cada um encerrado em sua própria forma de ver os acontecimentos – que, por ser diametralmente oposta à forma do outro, automaticamente a desqualifica. Mas aí a sacada genial da produção é que, de uma forma muito coerente, ambos acabam jogando pelo mesmo time. Fica aquela lição bacana de que em se tratando de política não existe lá um modo certo ou errado de se fazer as coisas, apenas fazê-las na honestidade e pensando no benefício geral já é o negócio. É aquilo, o filme tenta passar a idéia de que não existem personagens “bonzinhos”, mas os mocinhos são bem evidentes. Só que são mocinhos humanizados, que cometem erros como qualquer ser humano comum. Fica a sensação de que, no fim das contas, é só questão de escolher qual o tipo de erro que a gente vai preferir cometer.
O que me surpreende muito é que, para um filme que fala tanto sobre política, Tropa de Elite 2 consegue se manter bastante neutro em relação a isso. A única coisa dada como certa é a luta contra o sistema corrupto, porque os modos de se fazer isso são variados. Não existe uma resposta certa, só essa pergunta enlouquecedora que não pára de aparecer na nossa frente.
No fim das contas, não tem como não sair do cinema abatido pelo pessimismo. É tudo uma merda, a podridão é maior do que a gente pensava, sempre tem um bonzinho pagando um preço que não é seu, um salafrário se dando bem, a corrupção rolando solta. O sistema sobreviverá a todos nós e aos nossos esforços. Mas ainda assim, são questões que nos concernem e temos que fazer algo com elas, sob pena de elas fazerem algo com a gente.
Enfim, posso tentar discursar vagamente aqui à vontade, mas o melhor mesmo a fazer é recomendar que vocês assistam o filme. Não só por ser um puta filme do ponto de vista técnico, mas porque do ponto de vista emocional ele dá uma chacoalhada daquele tipo que todos nós precisamos de vez em quando.
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:: Postado por
Pri Zorzi :: 22:17 ::
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