Quando eu era pequena, aprendi na escola que a batata era um tubérculo. Fiquei imaginando, então, que seria legal se tuberculose fosse uma doença aonde a pessoa se transforma numa batata gigante. É mais ou menos assim que funciona a minha imaginação: ela simplesmente vai indo, sem se preocupar com nada. Às vezes eu consigo acompanhar, às vezes não. Mas sempre gostei de dar um espaço para as bobagens que passam pela minha cabeça. O blog é mais uma tentativa nesse sentido, aonde publico coisas que gostaria de compartilhar ou que penso que outras pessoas podem considerar interessantes também.

Aqui entram textos sobre coisas que gosto, coisas que não gosto, coisas que não gosto de gostar, coisas que gosto de não gostar, algo bacana que andei fazendo, algo bacana que conheci, reflexões sobre situações cotidianas, citações de outras pessoas, idéias mais elaboradas e idéias que pareciam geniais e dois dias depois de eu publicar parecem um saco. Gosto de repetir os mesmos assuntos e sou um vórtex de referências a cultura pop, mesmo que algumas só eu entenda. Meu texto tem aquilo que ele conta com clareza e aquilo que faz parte de uma linguagem secreta, que muitas vezes só eu falo. Nenhuma idéia deve ser tomada como minha opinião absoluta sobre o assunto, a maioria delas não vai durar muito tempo e muitas são exageradas porque era o que eu estava afim no momento. Não me sinto no compromisso de escrever com muita freqüência ou de escrever algo muito inteligente, embora eu certamente não pretenda escrever algo idiota.

Gosto de sarcasmo, humor negro e piadinhas politicamente corretas, mas sei do risco de ser mal-interpretada. Se você se sentiu ofendido, não era essa a minha intenção. Ou talvez você seja um cretino que não consegue entender uma ironia e aí o problema é seu. Cretino ou não, seja bem-vindo!







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[terça-feira, 2 de novembro de 2010]

If you’re wondering if I want you to, I want you to



A notícia é de verdade, ou ao menos assim parece: fãs retardados descontentes pedem pelo fim da banda Weezer. Leia mais em O Sul.

Já tava pra escrever sobre isso faz um tempo, mas é que é uma coisa tão ilógica que eu nem sei exatamente como falar. Só sei que acho isso um absurdo, problemático e um reflexo da sociedade nos dias de hoje. Vamos ver se explico bem.

Um fã descontente organizou uma campanha para que a banda Weezer encerre suas atividades. Segundo ele, desde o álbum Pinkerton a galerinha só tem feito porcarias e ele está cansado desse “relacionamento abusivo”. A idéia do cara, portanto, é que cada uma das pessoas que compraram uma cópia do Pinkerton contribua com US$12, de forma a somar 10 milhões de dólares, que ele ofereceria para os músicos encerrarem suas atividades.


Weezer é uma banda que descobri recentemente e da qual gosto bastante. Não tenho ainda um conhecimento muito extenso sobre a discografia deles, mas gosto de trabalhos mais recentes também. Felizmente a campanha freak arrecadou só US$12 até o momento, portanto não é com o fim da banda que eu me preocupo.

Me preocupo com esse tipo de freak, que de alguma forma me parece cada vez mais comum. Como disse a amiga que me passou essa notícia: não era mais fácil escolher outra banda pra gostar? Não só é mais fácil, como acredito que seja assim que a maioria das pessoas age. Todo mundo – ou quase, ao menos – tem alguma banda de quem só aprecia trabalhos de uma certa época. Uma de minhas bandas favoritas, o Smashing Pumpkins, parou de fazer discos que meu cérebro reconheça desde o ano 2000. Nunca pedi pelo fim da banda, nem ao menos deixei de gostar deles, só ignoro os trabalhos mais recentes. Talvez eles diminuam meu carinho pela banda em algum momento, mas isso também não é nada grave.

São várias coisas que me chocam nesse moleque. Uma delas foi citada pela notícia que eu linkei: o direito dos fãs de interferir no trabalho dos músicos. É uma questão polêmica, porque sem fãs ninguém tem sucesso, portanto respeito aos fãs cai bem. Por outro lado, ser fã significa que tu gostas do trabalho do artista em questão, e não que tu tenhas algum direito de opinar nesse trabalho. Até porque Stephen King já nos provou que ser fã demais pode ser bem doentio.

O artista é quem tem que se tocar se seus novos trabalhos desagradam fãs antigos e o quanto ele se importa com isso. E, caso ele perca fãs em massa, também é ele quem precisa se ligar no fato. Só acho exagero demais querer mandar na vida do artista e querer que ele faça o que eu acho legal e não o que ele quer. Aí é quase assumir que eu tenho idéias melhores que as dele, sendo que eu é quem sou fã dele e não o contrário.

Também acho uma bobagem esse moleque assumir que mais de 800mil pessoas (o número de compradores do Pinkerton) concordam com ele. Todo artista tem uma obra que é considerada a melhor, mas nem sempre as pessoas entram em consenso sobre qual é essa obra. Tampouco isso diminui o valor das outras obras, anteriores ou posteriores.

E deixo por último a cereja do bolo, que é o que mais me chocou na história toda: como deve ser a estrutura psíquica desse moleque, que não suporta o fato de a banda ter mudado (pra pior, segundo ele) e precisa que essa banda termine? Isso é o que mais me surpreende. Não quero fazer uma análise da criatura nem nada assim, mas como disse ali em cima, é normal uma banda mudar o seu estilo e é normal os fãs deixarem de gostar dela. O que não me parece normal é o cara não conseguir suportar essa pequena eventualidade da vida. Olhem a mobilização gigantesca que ele precisa fazer só porque não consegue seguir adiante, não consegue lidar com a frustração nem com a quebra da imagem que ele tinha da banda. E percebam que ele define isso tudo como um “relacionamento abusivo”, acentuando o mal enorme que a banda está fazendo a ele só por não corresponder às suas expectativas.

Ok, esse é só mais um freak e sua bizarrice é objeto de curiosidade. Mas quando falei lá em cima que isso é também um reflexo da sociedade moderna foi pensando que a intolerância por trás dessa atitude é uma coisa cada diz menos incomum. Vejo pessoas menos e menos aptas a lidarem com frustrações e com a realidade desmentindo as imagens que elas criaram para si.

Só que as relações humanas são muito baseadas em imagens. Fazemos uma imagem dos nossos pais, dos nossos amigos, dos nossos pretendentes, dos nossos ídolos... E é bastante ilusório acreditar que essa imagem nunca vai se desfazer. Os pais começam como ídolos de uma criança e na adolescência já se tornam pessoas cheias de defeitos que não entendem nada do que acontece com essa nova geração. Todo marido ou mulher um dia foi o par perfeito, até que vamos descobrindo pequenas coisas que a gente não suporta na pessoa. E assim vai.

Algumas vezes, esse rompimento de imagem é suficiente para causar um rompimento na relação: achávamos que a pessoa era uma coisa que ela não é, e essa coisa que ela é não nos interessa. Mas mesmo nesses casos, a existência do nosso antigo objeto de amor não pode ser ofensiva pra nós, como é para o pequeno freak do Weezer. É preciso lidar com esse rompimento de alguma forma.

Mesmo porque nem sempre um rompimento é desejado ou possível, e aí sim precisamos saber lidar com essa frustração. As velhas imagens se desfazem, mas alguma coisa sempre toma seu lugar. Com sorte, é uma imagem menos infantil, mais realista e mais apta a acomodar elementos que não nos agradam, mas que não necessariamente estragam o conjunto.


E em tempo: é impressão minha ou é cada vez mais difícil lidar com essas imagens não-correspondidas? Um relacionamento com alguém ou algo que não é exatamente o que a gente espera leva a um término, ou então a tentar mudar a pessoa ou o elemento a todo o custo, pra que se adapte às nossas necessidades. De qualquer forma, é infantil e narcisista.

Mas, se bobear, é esse o mundo e a sociedade que estamos criando por aí. Uma realidade aonde a realidade é cada vez menos suportável. Por quê, eu não sei.

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:: Postado por Pri Zorzi :: 16:06 ::
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