Eu não ia fazer um post de final de ano porque tenho a sensação de que não possuo mais nada a acrescentar sobre esse tópico. Também tenho andado numa ressaca intelectual que me impede de escrever quase todo o tipo de texto sem vomitar algum drama pessoal nele, e final de ano já é por si só um tópico que desperta dramas pessoais.
Só que mesmo com todo o discursinho de "eu não ligo pro final do ano", tenho também minhas tradições e manias das quais dificilmente me desfaço e uma delas é querer encerrar o ano do blog com um post mais pessoal. Gosto muito do
Projeto Review e pretendo inclusive postar o que falta em breve, mas queria encerrar o ano com um post mais pessoal.
Foi um ano conturbado, mas não vou tirar o blog pra divã, ainda mais numa semana aonde todo mundo para pra pensar no que fez da vida e no que pretende fazer agora. E, coincidência ou não, quase todo mundo que eu conheço se desanima nesse processo. Eu podia fazer um longo e inflamado discurso contra a mídia por propagar a idéia de um final de ano que é sempre mais mágico e cheio de amigos e festas do que os da vida real, mas acho que a questão nem é essa.
Sexta-feira o pessoal do meu setor desenvolveu a teoria de que Natal só tem cara de Natal quando tem criança junto, por todo o efeito da correria, dos presentes e do Papai Noel. Sou obrigada a concordar, e acrescento que Natal vai deixando de ter a mesma magia conforme vamos deixando de ser crianças. Minha memória pode ter me traído, não seria a primeira vez, mas tenho lembranças de um Natal com muito mais cara de Natal. Quando eu era menor, nessa época do ano a cidade costumava estar toda decorada, era quase uma competição pra ver quem tinha comprado mais luzinhas. Esse ano, se vi dez casas decoradas foi lucro, só os shoppings que permanecem sendo decorados a partir de outubro. Lembro que o Natal sempre reunia muita gente da família, que eventualmente acabou brigando ao longo dos anos e hoje em dia só se felicita com uma ligação burocrática. E lembro também de aguardar ansiosamente pelos presentes, que hoje em dia são mais sem-graças e menos freqüentes. E fora a morte de um dos maiores mitos infantis: o Papai Noel, um ser abençoado que vive com o objetivo único de te fazer feliz uma vez por ano. Aliás, a gente sabe que cresceu quando olha as crianças sentando no colo do Papai Noel no shopping e a primeira coisa que te ocorre é a quantidade assustadora de casos de pedofilia que existem por aí.
Não que meus Natais nos últimos anos não tenham sido bons, eles apenas não tiveram cara de Natal. Cada vez mais se pareciam com uma data comum aonde minha mãe fazia lombo coroado. Se mudassem o nome do Natal pra Dia do Lombo Coroado eu nem notaria a diferença.
Não sei se isso era pra ser um protesto contra a falta de magia da vida ou a perda progressiva dela porque comecei a escrever meio sem propósito, mas acabou tomando esse rumo (ao menos na minha cabeça). Não falei muito da virada do ano, mas ela segue a mesma linha, meus últimos finais de ano tem sido meio depressivos. Me obrigo a ficar empolgada com a passagem de ano, mas isso não acontece, é uma data qualquer. Nada similar aos reveillons de infância, com praia, foguetes, crianças correndo e minhas promessas de ano novo que eu nunca cumpria.
Acaba que me deprimo nem pelo que o momento é, mas pelo que ele não é. Ou pelo que ele não é
mais, mas talvez ele nunca tenha sido e eu que via diferente. O engraçado é que teria muito mais possibilidades agora de fazer coisas legais e diferentes, mas mesmo assim não consigo suprir essa ausência da magia que os finais de ano um dia tiveram. Talvez um dia eu chegue lá, ou descubra uma magia diferente.
Mas pelo menos esse ano passei o Natal incólume: não ouvi nenhuma vez a música da Simone!