Os leitores já devem conhecer meu
Projeto Review 2010 e portanto sabem que o costume é eu resenhar apenas material inédito pra mim. Contudo, na esteira da adaptação cinematográfica do último livro da série Harry Potter, decidi rever todas as adaptações anteriores. Como eu nunca havia escrito um texto sobre elas, pensei em fazer isso agora.
Sendo assim, há uma pequena resenha de cada filme e antes dela um breve resumo das minhas impressões do livro correspondente. Resolvi acrescentar esse detalhe porque meu interesse nos filmes é puramente por ser fã dos livros, então é difícil assistir sem ser contaminada por esse viés. E vale lembrar que não soltei nenhum spoiler dos livros, mas dos filmes sim.
Harry Potter e a Pedra FilosofalHarry Potter and the Sorcerer's Stone, 2001
Chris ColumbusLivro: É uma obra bacana, carismática e com uma narrativa que flui bem. Contudo, é o livro mais infantil da série, com a história mais sem-graça e o clímax menos empolgante. Se sai bem na função introdutória, lançando as bases para os demais livros, e o interessante é que, assim como nós, Harry não conhece nada do mundo mágico, permitindo que leitor e personagem descubram tudo juntos.
Filme: Assisti esse filme pela primeira vez antes de ter lido qualquer um dos livros e depois de ter visto o segundo filme. Achei-o bastante divertido, apesar de considerar o embate entre Harry e Voldemort meio mal-explicado. Contudo, ao ler descobri que isso é mais culpa do livro do que do filme, pois o filme é extremamente fiel à história do livro. Esse pra mim é o grande elemento de destaque do filme e seu maior mérito: a despeito das mudanças ocasionadas pela troca da linguagem literária pela cinematográfica, o filme consegue transpor totalmente o livro, sua história e seu universo.
Os personagens também estão bastante fiéis, o que considero um elemento muito importante. Algumas características físicas salientadas no livro não foram representadas na adaptação, mas nada que faça diferença realmente. As atuações estão bacanas e todo mundo me pareceu convincente como o personagem que representa.
A direção do filme é bastante convencional, sem ousar nos planos nem movimentos de câmera. O ponto negativo disso é que o potencial estético dos cenários de Hogwarts seria imenso, ainda mais para o filme inicial da série, e isso parece não ter sido aproveitado. Mas também não culpo: basta olhar os efeitos especiais utilizados e perceber que a chance de dar cachorrice era grande. É o filme mais debilitado nesse sentido, e CGs como as da partida de quadribol ou o cão de três cabeças me fazem sentir vergonha alheia. Tá certo que o filme é velho, mas eles podiam ter feito melhor que isso.
No fim das contas, é um bom filme, faz jus ao livro que ele adapta e qualquer ponto sem-graça da história é culpa do original. E apesar de qualquer cachorrice visual, não é menos gostoso de assistir.
Harry Potter e a Câmera SecretaHarry Potter and the Chamber of Secrets, 2002
Chris ColumbusLivro: O segundo livro segue bastante os moldes do primeiro, só que é mais interessante. Ainda é bastante infantil, mais pela forma como é apresentado do que pela história em si, que dessa vez é bem mais instigante. Livre da tarefa de introduzir personagens e situações, o livro pode desenvolvê-los e aprofundá-los, tarefa que executa de forma firme e discreta. Introduz mais um punhado de personagens importantes no futuro, mas permitindo que nos acostumemos com eles aos poucos.
Filme: Esse filme foi o meu primeiro contato com a série, antes de ter lido ou visto qualquer outra coisa. Naquela época, mesmo sem ter noção de como Harry se inseriu no mundo da magia, não achei o filme difícil de acompanhar nem o universo da série difícil de se inserir, o que é um ponto muito positivo.
Aqui mais uma vez a narrativa flui super bem, é uma história gostosa de acompanhar. É semelhante ao primeiro filme em muitos aspectos, da direção convencional à adaptação fiel. Dessa vez noto os cortes na história, mas tudo muito discreto, apenas detalhes. Nada de importante ficou de fora ou deixou de ser bem desenvolvido. Como a história segue basicamente o livro, acredito que, se tu lestes, gostas do filme na medida em que gostas da história daquele livro.
Visualmente ele dá uma melhorada em relação ao anterior, com CGs menos bagaceiras – ainda assim ruins, mas uma ruindade menos gritante. Os cenários ficaram bacanas, apesar de a aparência do basilisco e do centauro serem bem diferentes do que eu imaginava (até porque no livro o centauro era descrito como bonito). Mas isso é uma percepção pessoal, e certamente nada que diminua o resultado final.
Somando o fato de a história ser mais interessante e os efeitos visuais melhores, os fãs que exigirem adaptações mais fiéis se agruparão em torno dessa película aqui, que é pra mim a que melhor transpõe a série pras telas.
Harry Potter e o Prisioneiro de AzkabanHarry Potter and the Prisoner of Azkaban, 2004
Alfonso CuarónLivro: Aqui é aonde a série dá a sua maior virada, no sentido de que o tom amadurece muito em relação aos livros anteriores. É um tom mais sombrio, mais adolescente e menos criança (como os próprios personagens), mas ainda assim bastante lúdico e gostoso de acompanhar. A história é uma das mais interessantes e saindo um pouco daquele clímax na linha “Harry versus Voldemort” e introduzindo dois dos personagens mais legais da série, Lupin e Sirius. O livro é uma delícia do início ao fim e pra mim compete com
A Ordem da Fênix pelo posto de melhor livro da série.
Filme: Assisti esse filme pela primeira vez no cinema, antes de ter lido qualquer livro da série, e foi o que mais gostei até então. Contudo, quando li o livro notei uma diferença espantosa. Traduzindo: o filme é legal, mas o livro é esmagadoramente melhor.
Nesse filme dá pra sentir com muito mais força os cortes na história original. Isso se dá de dois modos: pequenos cortes, aonde uma seqüência grande é encurtada ou uma situação é deslocada do seu lugar original, e grandes cortes, aonde blocos inteiros de acontecimentos são deixados de fora. Pra quem leu o livro, esses grandes cortes são os que machucam mais, mas quem não conhece o material original não vai dar falta de nada, porque a narrativa flui muito bem.
Cito aqui os três grandes cortes que mais se destacaram pra mim. O primeiro é o campeonato de quadribol, que a certa altura do filme é totalmente esquecido, enquanto no livro segue tendo peso até o final. O segundo é a vassoura nova de Harry, aquela que ele recebe na última cena do filme, mas que no livro aparece lá pelo meio e gera alguma confusão. Tenho que assumir, contudo, que apesar de estas cenas serem divertidas no contexto do livro, não deixam de ser tramas paralelas, que não influenciam tanto na história principal. Eu as teria dado algum espaço, mas também não achei tão problemático o que fizeram visto que algo teria que ficar de fora.
Só que teve “algo” que ficou de fora e eu não gostei disso, e é o que diminui o filme aos meus olhos. É o que considero o terceiro grande corte, a explicação sobre os Marotos. Eles são mencionados brevemente como os criadores do mapa que Harry usa, mas depois não se explica mais nada sobre os personagens e é preciso um poder de dedução muito grande pra entender quem eles realmente são. Digo por experiência que quem apenas viu o filme não dá falta de explicação nenhuma, mas no livro esses personagens dão um novo sentido pra história, uma vez que a história deles permeia toda a história do terceiro livro. Apesar disso, não seria nada longo ou complexo de explicar, o que me faz questionar porque o filme não podia ter 5 minutos a mais e ter acrescentado esse elemento, tão característico dessa obra.
Minha única queixa é essa, de resto o filme manda muito bem. O visual dá um banho nos filmes anteriores. Aliás, quando considero o tom sombrio, os planos bonitos e a fotografia excelente, que explora os diferentes ângulos de Hogwarts, o filme está superior até aos que vieram depois. A CG vai melhorando, agora atingindo o nível de “aceitável”. Apenas o visual do lobisomem ficou meio tosco, uma versão careca e magrela do que pra mim seria um lobisomem.
Apesar de eu lamentar muito o corte dos marotos, tenho que admitir que o filme é bacana e gostoso de assistir. Especialmente pra quem não leu o livro, porque não sofre com a comparação.
Harry Potter e o Cálice de FogoHarry Potter and the Goblet of Fire, 2005
Mike NewellLivro: É um dos melhores livros da série, mantendo o tom certeiro do anterior. Introduz alguns novos coadjuvantes e conceitos que futuramente serão retomados, desenvolve os personagens já existentes, e acrescenta uma sutil dose de romance, ainda muito platônico. A narrativa flui de forma muito gostosa, alternando momentos importantes para o eixo principal da série com momentos dedicados apenas ao desenvolvimento dos personagens. Minha única crítica é que parece quase preguiça da parte da autora argumentar que colocar Harry no torneio era necessário para ocasionar o encontro dele com Voldemort. Se a taça era uma mera Chave de Portal, então era mais fácil transformar em Chave de Portal qualquer merda de objeto que Harry tocasse, poupando 500 páginas de livro. Contudo, isso gerou uma história agradável de ler e um clímax importante para a série, então consigo perdoar J. K. Rowling por isso.
Filme: Quando assisti esse filme, eu já havia lido tudo o que tinha sido publicado até então. Na época o considerei o melhor da série, depois disso ele caiu um pouco no meu conceito, e hoje está num meio-termo. Não o considero um filme particularmente bem adaptado, mas enquanto filme ele sabe ser divertido.
É complicado delinear o que me incomoda nele, mas a primeira coisa que me ocorre é que o filme está simplesmente
corrido demais. Tem momentos em que 100 páginas de livro correspondem a quinze minutos de filme! Felizmente, poucos cortes são realmente relevantes, permitindo que mesmo os fãs do livro consigam curtir o filme.
Enquanto fã do livro, senti falta de alguns elementos que gostaria de ter visto na tela, mas que não prejudicaram (muito) a história do livro. Gostaria que tivessem sido mostrados a partida do Mundial de Quadribol e os obstáculos da tarefa final de Harry, duas cenas com um potencial cinematográfico enorme. Em relação à história, dei falta de um desfecho decente à presença da jornalista, que simplesmente some. Em se tratando de personagens, me incomoda muito a ausência do Dobby, particularmente pelo papel dele no decorrer da série, e também acho que poderiam ter dado algum espaço para personagens como Percy, Bagman e Crouch (que aparece no filme, mas muito pouco) e mostrado a origem de Hagrid.
Aí já se nota uma tendência dos filmes a priorizar o desenvolvimento do Harry e do trio principal em detrimento dos coadjuvantes. Não chega a ser uma decisão errada, mas é uma pena, porque a meu ver a força maior de Harry Potter são seus personagens, incluindo aí muitos coadjuvantes.
Mas nenhum desses elementos que foram excluídos prejudica o andamento da série se as pontas soltas deixadas por eles forem concertadas mais adiante. Só um dos cortes me pareceu muito acertado: a exclusão da Frente de Apoio à Liberação dos Elfos. No livro, essa sub-trama era responsável pelos momentos mais enfadonhos da história, além de influenciar pouco no eixo principal da história. Deixá-la de fora não apenas tornou o filme mais dinâmico, como deu espaço a outros elementos mais interessantes.
Mas, geralmente, me incomodo menos com cortes do que com acréscimos, e dessa vez não foi diferente. Me dá nos nervos a forma como Bartô Crouch Jr. foi inserido na história. No livro, tu conheces a história dele lá pelo meio, e apenas como complemento à personalidade do pai. Há dúvidas de que o guri seja realmente criminoso, de forma que nem te ocorre desconfiar dele, menos ainda pensar que ele seja o Moody disfarçado. Só que o filme CAGA nesse suspense, mostrando: a) ele ao lado de Voldemort na cena inicial, fazendo todo mundo se perguntar quem é o vilão novo; b) ele conjurando a Marca Negra na Copa, com ênfase num tique estranho e desnecessário que ele tem com a língua; c) lá pelo meio do filme, o Moody faz o mesmo tique com a língua e o Bartô Crouch pai estranha pra caramba; d) o jeitão psicopata dele, particularmente na cena do julgamento, deixa ÓBVIO que ele é um criminoso. Poh, galera, precisava de tudo isso? Tenho pavor de filmes que insultam a inteligência do espectador, achando que precisam dar tudo mastigadinho ou ele não entenderá nada.
Fora essas queixas, o filme está bem decente. O visual não está tão artístico quanto o do terceiro filme, mas ele faz um bom trabalho explorando a fotografia e os diferentes ângulos de Hogwarts. Os efeitos visuais finalmente atingem um nível considerável, o que sempre ajuda, especialmente na hora de compor as cenas de ação, que estão bem interessantes. Em termos de atuações, ninguém decepciona e os atores novos encarnam bem os seus personagens. E é o último filme aonde a gente pode se iludir que Daniel Radcliffe vai ser bonito quando crescer!
O saldo final é um filme divertido, gostoso de assistir e com uma história bacana. Sai perdendo pro livro, que desenvolve de maneira bem mais empolgante todas as situações, mas faz um trabalho decente.
Harry Potter e a Ordem da FênixHarry Potter and the Order of the Phoenix, 2007
David YatesLivro: Com exceção do último livro, esse é o mais sombrio da série e aquele em que Harry mais se fode. Ele sofre o livro INTEIRO, mas a postura dele é o que impede o livro de ser EMO, lhe conferindo um caráter mais revoltado. É meu livro favorito, levando ligeira vantagem sobre o terceiro. Aqui a série atinge o seu ponto alto, o momento mais foda. O livro é enorme, entrelaçando diversas tramas paralelas, mas todas muito interessantes. Só lamento, obviamente, a morte do Sirius, que apesar de eu achar bem idiota conseguiu me fazer chorar. #emo
Filme: Pqp, que lixão. Não sei se sou mais sensível por se tratar da adaptação do meu livro favorito da série ou se o filme é terrível mesmo. Eu tinha altas expectativas quando o vi no cinema pela primeira vez, mas foi só passar a cena inicial para eu começar a sessão de “whatafuck...? O que...? Ah, meu Deus, que merda” ou “putz, como esse momento era genial no livro”, que durou o filme todo. Revê-lo agora só me fez perceber que ele era horrível mesmo, não era frescura minha.
Os defeitos são muitos, vamos ver se consigo priorizar.
O filme simplesmente trucida a história do livro. Compreendo a dificuldade de adaptá-lo: são 700 páginas aonde quase nada pode ser cortado sem prejudicar algum outro elemento. Só que a solução que Yates encontrou pra isso foi passar a tesoura em praticamente TODAS as cenas, tornando o filme quase um trailer do livro. O resultado é uma história picotada, confusa, aonde nada é bem desenvolvido.
É o filme que pior explora os personagens. Os coadjuvantes, sejam os novos ou os antigos, praticamente não existem, com exceção de Luna (sempre divertida) e a Umbridge (que apesar de estar bem diferente do que eu imagino, a atuação da Imelda Staunton ficou sensacional). O resto, tu mal sabes o nome, é o filme do Harry com participações especiais de Rony e Hermione. Aliás, Harry está uma chatice! As explosões de raiva que ele têm durante o livro são mostradas de um jeito afetado demais, meio contido e meio teatral ao mesmo tempo. Pior atuação do Radcliffe até agora.
Somando tudo isso, o filme não tem emoção NENHUMA. É tudo inexpressivo, um monte de coisas acontecem e parece que isso não faz diferença pra ninguém. O relacionamento entre Harry e Cho, o primeiro que vemos na série, resume-se a um beijo aonde eles parecem ter nojo de se tocar. A morte do Sirius é totalmente desprovida de emoção, além de foder a dúvida que o livro te deixa sobre a possibilidade de ele voltar um dia.
Além disso, diversos cortes prejudicam a história e os personagens. A função de Umbridge na escola é mostrada quase que em flashes, prejudicando o entendimento do gradual ganho de poder dela e das conseqüências reais disso pra alunos e professores. Nada da entrevista de Harry é mostrado, porque nada da jornalista nem d’O Pasquim é mostrado. Nada do conflito de Percy com os Weasley é mostrado. O momento tocante com os pais de Neville não é mostrado, porque a cena do ataque ao Sr. Weasley é tão reduzida que quando eu percebi que ela estava acontecendo já tinha terminado tudo. Nada da missão de Hagrid é mostrado, a função dele no filme é basicamente introduzir o Grope para umas duas cenas. Quase nada da sede da Ordem da Fênix é mostrado. Nada de quadribol é mostrado. CARALHO, o que esse cara tem contra o quadribol? Simplesmente deixa de existir na série, acho que nem ao menos é mencionado!
E, se tudo isso ainda não serviu pra perceber, a direção de David Yates é uma MERDA. Ele não consegue te transmitir nada com uma história tão picotada e personagens tão escanteados, e então recorre ao odioso hábito de obrigar os personagens a explicar o tempo todo o que está acontecendo e o que estão sentido. “Oh, Dumbledore não falou comigo o verão todo, agora estou furioso”. Poxa, se a gente não percebe sozinho esse tipo de coisa, o cara não é um bom diretor.
E pra completar, Yates faz umas lambanças visuais que me dão nos nervos. Não me refiro à fotografia ou aos planos, que estão bem bonitos, nem aos efeitos especiais, que ficam muito bons, mas à mania dele de mostrar coisas em FLASHES. Porra, QUAL O PROPÓSITO DISSO?! Daí tá o Harry na rua e ele vê um flash do Voldemort. Porque? Esquizofrenia, provavelmente. E outra hora aparece um flash do Voldemort nas nuvens a troco de nada. Me lembrou aqueles desenhos antigos que pra trocar de cena mostravam a cara do personagem ou coisa assim.
A forma como ele mostra os sonhos de Harry e as lembranças de Snape é terrível, epilética e confusa. O cara simplesmente mostra uma sucessão rápida de imagens como se isso fosse mais legal do que ver algo que fizesse sentido. Sem falar da ação final, que é completamente falha e... sem ação. A briga entre os bons e os maus é muito confusa, revelando que Yates não sabe dirigir batalhas. Não existe coreografia, tu não entendes o que eles fazem além de disparar luzes, e os bruxos ficam dançando na forma de fumaça durante a maior parte do tempo. O que DIABOS é pra ser essa fumaça? Lost encontra Harry Potter?
Enfim. Posso ter minhas críticas quanto aos filmes anteriores, mas todos eles bem ou mal acabam passando no teste e produzindo materiais minimamente interessantes. Esse não. O filme é ruim que dois e nenhum aspecto se salva. Epilético, inexpressivo, arrastado, e outros tantos adjetivos podem definir esse estupro à mitologia da série Harry Potter.
Além de servir como prova de que, como diretor, David Yates é um ótimo vendedor de cachorro quente.
Harry Potter e o Enigma do PríncipeHarry Potter and the Half-blood Prince, 2009
David YatesLivro: Meus sentimentos em relação a esse livro são bem ambíguos. Ele é divertido, mantém o carisma dos anteriores e é o que mais se dedica a desenvolver os personagens, tanto heróis quanto vilões. O problema é que ele faz SÓ isso, não acontece mais nada! Ao invés de distribuir melhor a ação, J. K. Rowling preferiu deixar todas as tarefas possíveis para o último livro e passar o tempo todo brincando de Malhação. Assim, a história tem dois eixos: de um lado, as desventuras amorosas de Harry e trupe, de outro, Harry e Dumbledore estudando a história de Voldemort até descobrir o caminho para derrotá-lo. Estes últimos são os momentos mais interessantes do livro, ainda que culminem em um clímax mal-aproveitado.
Filme: Assisti no cinema ano passado e odiei. Com a revisão, se revelou menos pior do que eu lembrava – talvez por eu ter o quinto pra usar como comparação – mas continua sendo sofrível.
O único lado bom é que David Yates parece estar menos David Yates aqui. O filme é menos epilético, sem flashes toscos, o roteiro é menos picotado. O visual está mais contido, com uma estética bonita e planos interessantes, mas que também não são nada de mais.
Se o livro tem dois eixos, a história de Voldemort e o Momento Malhação, o filme faz uma escolha duvidosa e centra 80% de sua história nos rolos amorosos da gurizadinha mágica. Às vezes o faz com competência, às vezes não. Rony namora uma garota gorda e miguxa e Hermione sofre por isso. Harry descobre que do nada está apaixonado pela irmã de Rony, pois mesmo que ele a conhecesse há seis anos, só agora ela ganhou personalidade nos filmes. O namoro apaixonado dos dois é substituído por um selinho sem sentido que nunca mais é comentado (
Big Lipped Aligator Moment?). David Yates prova que é uma fera na cama ao, mais uma vez, retratar um casal de namorados com receio de se tocar.
O eixo Voldemort é bastante desfigurado. Pra começar, as diversas lembranças existentes viram apenas duas: uma de Dumbledore e a lembrança alterada de Slughorn. Ambas são feitas com um visual tão extravagante que quase grita “ATENÇÃO, ISSO NÃO É A REALIDADE”, como se alguém não tivesse entendido. Isso prejudica um pouco a fluidez das lembranças e me lembra do velho Yates de
Harry Potter e a Ordem da Fênix.
O problema na exclusão das demais lembranças é que elas guiam os passos de Harry no livro/filme seguinte. Eram a única pista do moleque sobre quais os objetos que podem conter uma parcela da alma de Voldemort e, portanto, precisam ser encontrados e destruídos. Sem essa informação, malz ae Harry, mas qualquer casca de banana no chão vira uma horcrux em potencial.
A missão de Draco é mostrada de forma confusa e desinteressante. Apenas vemos ele com cara de emo sofredor visivelmente tentando matar o Dumbledore. A outra parte da tarefa, permitir a entrada dos Comensais da Morte em Hogwarts, fica totalmente sem sentido uma vez que os Comensais entram em Hogwarts pra não fazer NADA. Ah, perdão, Helena Bonham Carter gira e grita.
Ao menos ficou de fora a ladainha irritante de Harry tentando convencer a todos de que Draco estava tentando matar Dumbledore. No livro, essas partes me davam nos nervos, ponto para o Yates em cortar uma parcela disso fora.
O resto dos cortes, contudo, se dá de forma bem deselegante. Ele encurta diálogos e seqüências com a mesma habilidade de quem tenta talhar o David de Michelangelo em um tronco de madeira podre. O resultado é algo tosco e mal-lapidado, que dá a sensação de que ele não tem domínio sobre o seu material e não soube o que tirar ou deixar.
Não consigo entender o propósito da cena do ataque à casa dos Weasley. De qualquer ângulo que eu olhe, a cena não acrescenta em nada além de nos mostrar mais uma vez que Yates não sabe conduzir batalhas. De resto, é um acréscimo que fica até sem sentido, uma vez que se fosse tão fácil “vir aqui pra matar o Harry”, acho que o Voldemort teria tentado isso antes.
O clímax é bastante sofrível, o que é em parte culpa do livro, mas em parte falta de habilidade de Yates. Os Comensais da Morte, que deveriam provocar uma pequena batalha ali, apenas observam e acompanham Draco e Snape. O lado bom é que essa é uma batalha que David Yates NÃO estragou... A morte de Dumbledore teve mais emoção que a de Sirius, o que significa que foi tão tocante quanto uma novela da Globo. E talvez valha acrescentar que no livro Harry é paralisado por um feitiço e por isso não reage quando matam Dumbledore. Sabe como é, alguém que tenha visto o filme poderia pensar que o moleque é um CAGÃO que vê o motivo de ele estar vivo sendo assassinado e não faz nada. Mas Yates gosta de tomar decisões que façam sentido, não é mesmo?
E não vou nem comentar que o filme ARRUINA o suspense em torno da lealdade de Snape. Se nos livros esse permanece até os momentos finais como um dos maiores mistérios, nos filmes tu tens que ser um bocado paranóico pra achar que ele tem alguma chance de ser mau. Diálogos que não deveriam estar lá, hesitações, expressões faciais denunciadores... Só faltou alguém gritar “o Snape é bom, gentem!” pra não deixar dúvida. Afinal, dúvida é uma coisa ruim e o bom mesmo é agir como se todos os espectadores tivessem 8 anos ou menos.
Uma pena, porque Alan Rickman é o ator que mais se destaca na produção, passando perfeitamente o ar de Severo Snape. Pena que outros atores não se inspiraram nele. Helena Bonham Carter, por exemplo, parece esquecer que é uma boa atriz. Ao invés de nos dar uma Belatrix psicopata e fria, ela exagera nos trejeitos e passa o tempo todo girando e gritando, de um jeito que não assusta ninguém. Nenhum dos dois Voldemort jovem me pareceu convincente no papel. Sobrou inexpressividade e frieza e faltou o carisma e charme sempre associados à pessoa de Tom Riddle. Jim Broadbent, apesar de parecer um pouco mais “vovô simpático” do que imagino para Slughorn, faz um papel bacana como o novo professor de Poções.
Novamente o quadribol sumiu, me levando a questionar o porquê de Yates odiar tanto o esporte mais idolatrado do mundo bruxo. Os elfos domésticos também sumiram, não é como se no próximo livro/filme eles fossem ser importantes e precisassem de um espaço já consolidado para despertar alguma emoção, né?
O filme pode ser menos pior que o anterior, mas nem por isso deixa de ser uma produção medíocre. Oferece bons momentos e um visual legal, mas fica só nisso. É bem pior do que o livro, e olha que o livro é o que menos gosto. Tá certo que Harry Potter não é uma literatura muito profunda, mas tem carisma de sobra e é bastante divertida. Pena que Yates não saiba nada sobre como cativar pessoas.
Proponho que David Yates seja queimado em praça pública, mas julgarei melhor quando assistir a primeira parte do último filme.
Até.