Aos que se perguntam sobre a total ausência de atualizações desse sítio no ano corrente: não, eu não morri. Ou melhor, eu morri.
Não uma morte física, porque se fosse esse o caso eu seria um prodígio do espiritismo na era digital. Foi uma daquelas tantas mortes metafóricas pelas quais a gente passa ao longo da nossa existência, quer goste ou não da idéia. Eu, pra ser sincera, inicialmente me assustei, mas agora estou mais calma e até que estou curtindo.
Sem entrar muito no mérito do que me aconteceu nos últimos meses, desde o final do ano passado, vale citar que foi um dos períodos mais cretinos da minha vida. Graças a Deus, não sobrevivi a ele. E não deixei de sobreviver por algo que tenha feito ou deixado de fazer, mas simplesmente porque determinados momentos da vida não permitem que tu sobrevivas a eles. Várias vezes na vida a gente se encontra com a morte.
(que bom que ao menos no caso das mortes metafóricas nos é possível renascer depois. A morte física não possui essa enorme vantagem, ao menos não que se tenha comprovado. Em contrapartida, desconfio que ela traga sua própria vantagem acima da morte metafórica: a morte física é a única que não nos gera luto. Afinal, estamos mortos mesmo, não faz muita diferença. O luto é, portanto, uma afirmação da continuidade da vida. Todas as mortes metafóricas geram luto, e talvez um dos mais dolorosos: o luto por si mesmo)
Não foi a minha primeira morte metafórica, o que a tornou marcante talvez tenha sido a percepção tão aguda dela. É nessas horas que a gente se dá conta do quanto morre em vida o tempo todo e do quanto isso é um processo natural. Como diriam as pichações dos banheiros da Faced, “insanidade é fazer a mesma coisa e esperar um resultado diferente”. Também é insano ser a mesma pessoa e esperar um destino diferente.
Me recordo de uma situação ano passado, aonde descobri uns mantras bacanas para meditação. Um dos que mais gostei é justamente um dos mais conhecidos do hinduísmo:
Ohm Namaya Shivaya, o mantra de adoração a Shiva. Acontece que fui descobrir que Shiva é o deus hindu da destruição, o que na hora me assustou um pouco. Imagina, tô eu fazendo minha meditação numa boa e sem saber tô reverenciando o deus da destruição? E aí fui descobrir que Shiva é muito reverenciado porque ele é aquele que destrói para dar caminho para algo novo (e melhor, suponho). Fiquei sabendo assim que a yoga, prática que eu tanto aprecio, é intimamente ligada a Shiva, justamente por se propor a transformar o corpo e a mente. Toda a transformação é uma morte, da forma óbvia como a borboleta é a morte da lagarta.
É impossível viver sem nunca morrer. Como diria Mr. Nancy, “a gente tem que morrer de vez em quando, senão não te valorizam”. Não dá pra passar a existência sem nunca se deparar com um obstáculo ou situação que nos exija que deixemos de ser aquilo que somos ou que nos livremos de algo que era nosso. E esse processo dói, ainda mais que toda a morte é irreversível. Só que têm casos em que a negação da morte seria a negação da própria vida.
Não vou entrar naquele blá-blá-blá de “olha como sou uma nova pessoa”, porque acho que esse tipo de coisa não precisa ser anunciada. Tem gente que vai perceber de imediato e tem gente que não perceberia nem se eu fosse substituída por um Sim Planta. Além disso, às vezes nem que a gente queira consegue anunciar a transformação. As verdadeiras revoluções se dão no silêncio. Não no silêncio da inércia, mas no silêncio que precede a tempestade.
Tampouco acho que eu seja uma pessoa inteiramente nova (as referências nerds, por exemplo, não morreram comigo. Consigo ver pelo menos três, e a do título eu dou um ovo de Páscoa pra quem souber de onde veio sem precisar olhar no Google. Menos tu, Thiago). É ingenuidade achar que a gente pode mudar totalmente de uma hora pra outra. Na verdade, é ingenuidade achar que a gente pode mudar totalmente, não importando quantas horas se passem. A gente muda um pouco a cada dia, alguns objetarão, e não lhes tiro a razão. Mas a morte metafórica sempre nos leva algo de peso. Ainda assim, muita coisa eu conservo comigo, coisas boas e ruins, que podem sobreviver ou não a novas mortes.
Então espero que isso tenha feito algum sentido pra vocês. Foi assim que aconteceu, dessa vez eu morri de verdade, e a morte me serviu de empurrão pra uma nova vida.
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Nessa nova vida, diga-se de passagem, pretendo atualizar o blog com mais freqüência (apesar de que acharia difícil atualizar ele com
menos freqüência). Também tenho a intenção de retomar o Projeto Review 2010 porque gostei dele e ele acabou ficando pela metade, mas decidi que não vou falar de tudo e sim apenas daquilo que me der vontade (mote que também adotarei no Projeto Review 2011). E vou ver se dou uma variada no conteúdo dos posts também.
Até.